Os perigos da redução de estômago
Hoje o assunto era o alcoolismo em mulheres — mães, já que a Oprah tem que agradar a “tradicional família americana”, e é ela seu público-alvo — que fizeram cirugia de redução do estômago.
Honestamente, por mais tolo que isso possa soar, eu também pensava que a gastroplastia fosse uma espécie de “toque de condão” que permitisse a um gordo livrar-se rapidamente do vício por comida. Mas não é. Há estatísticas que constatam que nos Estados Unidos cerca de 30% dos pacientes que fazem o “bypass” (quando reduzem o estômago para algo do tamanho de uma noz) tornam-se viciados em álcool.
Pelo que entendi dos depoimentos, o fato é que o sujeito que se submete a uma operação dessas não se livra da compulsão alimentar, apenas fica impossibilitado de comer o quanto gostaria, pois qualquer quantidade de comida além das três uvas que cabem no “novo” estômago implica passar mal. Como ele tratou o tamanho do reservatório (ou receptáculo) mas não tratou a causa da compulsão, o resultado é a transferência de um vício para outro.
Um dos maiores riscos nesse caso é o fato de que, devido às reduzidas dimensões do estômago operado, o álcool da bebida vai direto e rapidamente para o intestino delgado, onde é absorvido pela corrente sangüínea. É comum o depoimento de operados dizendo que sentem-se em estado de embriaguez imediatamente após o primeiro drink.
Contudo, o álcool e outras drogas (imagino que seja fácil para quem tem acesso ou propensão tornar-se viciado em cocaína ou mesmo em maconha) não são as únicas armadilhas comuns aos ex-gordos. Contaram a estória de uma mulher que depois de emagrecer 96kg com a redução de estômago perdeu o marido, e passou a ter um comportamento promíscuo (nos termos da Oprah): teve 14 casos depois de separada, 7 foram de uma noite só e desses, 5 foram com completos desconhecidos. (Espero que a Oprah nunca me pergunte sobre minha vida sexual, ou vou ficar realmente embaraçado para responder, pois se essa vidinha da mulher, depois de separada, é promiscuidade, não sei qual a classificação que vão me dar.)
O mais interessante com relação ao depoimento dessa mulher foi ela dizer que estava viciada em atenção, e não no sexo propriamente dito. Ela queria era ter companhia, pois sentia-se sozinha e deprimida.
As outras mulheres que depuseram — inclusive uma celebridade, a cantora Carnie Wilson, que eu nem sabia que existia, mas ao saber que ela é filha de um dos Beach Boys meu cérebro fez uma conexão com alguém conhecido — também falaram justamente disso. A cantora, por exemplo, já aos quatro anos de idade tinha distúrbios alimentares, e aos nove estava realmente obesa. Quando resolveu operar-se virou “garota-propaganda” da redução de estômago, e naturalmente passou a ser muito observada e cobrada (nem que por si mesma, apenas).
Claro que as entrevistas não tinham, nem da mais sutil forma, a intenção de militar contra a gastroplastia. O intuito era alertar para o fato de que os efeitos psicológicos colaterais são de certa forma negligenciados pela maioria das pessoas. Contudo, todas as entrevistadas afirmaram que não sabiam desses riscos, e mesmo que soubessem ainda assim fariam a cirurgia.
Creio que a conclusão racional de tudo isso é que não dá pra negligenciar a importância de um adequado acompanhamento psicológico para quem deseja perder peso. A maioria de nós, com problemas de sobrepeso, precisaria mesmo era descobrir a causa-raiz da compulsão alimentar. Descobrir o que tentamos compensar com a comida, qual a ansiedade, decepção, raiva, etc, tentamos soterrar na gordura.
O momento mais aplaudido pela platéia da Oprah foi quando a conselheira que estava lá disse que ao ter filhos abrimos mão do direito à autodestruição. Para mim, contudo, o melhor momento foi quando uma das mães disse que sabia que os filhos e o marido estavam desapontados com ela, mas ela também achava que após 17 anos de dedicação ela tinha o direito de sair e se divertir, e ficar alegre, que não precisava ser a escrava da casa para o resto da vida. Talvez isso fale mais do porquê de a gente comer em excesso do que todo o blablablá reinante.
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