Diário de um gordo
Recebemos um comentário de um leitor ao texto Depoimento da Dina, que conta como ele saiu de ser magro (a ponto de ter o apelido de “Cotonete”) a estar obeso de não suportar mais o próprio corpo, bem como sua caminhada inversa, em busca do peso ideal e de um corpo saudável.
Apresentaremos o texto do leitor chamado Marcus, e em seguida faremos um pequeno comentário.
Diário de um Gordo
por Marcus
Quero começar depondo sobre meu histórico com a balança, pois já experimentei os dois lados da moeda.
Aos quinze anos era um adolescente traumatizado por ser muito magro. Media 1,65m e pesava por volta de 50 kg. Isso pra um homem com cabeça grande é terrível. O peso era só dos ossos.
Não pegava ninguém. Tinha vergonha de sair de casa. Camiseta regata ou shorts nem pensar. Era quase uma fratura exposta, de tanto osso. Praia ou piscina piorou.
Era enjoado com comida. Gostava de besteira como sanduíches e doces, mas não conseguia comer muito. As refeições como café da manhã e almoço eram menosprezadas.
Enfim: magro, feio, envergonhado.
Insatisfeito, comecei a tomar remédios pra engordar, profol, e outras vitaminas cujos nomes não me recordo.
Resultado: 12 kg a mais em poucos meses. Comecei a ser notado no meio da galera. Amigos, primeira namorada, festas e até piscina.
Aí veio o vestibular, pressão, dedicação, toda a minha energia em busca do meu maior sonho. Conseqüência: aprovação no vestibular e perda de 11kg.
Até hoje lembro que na primeira semana de aula fiz amizade com uma colega que conheci dias antes na data da matrícula. Ela me pôs o apelido de cotonetes. Nem preciso explicar por quê.
(In)felizmente meu tempo de magreza durou pouco.
Passei, inexplicavelmente, a ser louco por comidas, além de ter potencializado minhas antigas preferências por doces e massas em geral. Não era capaz de resistir a um bolo ou a uma macarronada.
Às vezes eu estava sem dinheiro e ficava irritado pensando porque as confeitarias e restaurantes não parcelavam em 12 vezes sem juros no carnê, sem consulta aos SPC/SERASA.
Pois bem, passei a ganhar peso, sem notar muito, em razão da minha atual altura: 1,83m.
Dos 70 aos 80 kg foi imperceptível. Passei toda a faculdade com um peso considerado bom, mas com uma pequena barriguinha que não me incomodava. Oscilava até os 80kg e não passava disso, mas sempre comia um pouco mais no almoço ou um pouco mais na janta.
Ah! Já tava esquecendo, não posso sonegar que sempre odiei atividade física, era do tipo que apresentava atestado no colégio pra faltar as aulas de educação física.
Apesar de comer muito, e não gostar nem ter tempo e dinheiro pra academia, eu fazia muita atividade.
Ora, morava numa cidade em que o transporte coletivo era caótico e não tinha carro próprio. Então, como as caronas eram difíceis, eu andava pra caramba. Ia e voltava pra faculdade. Ia e voltava pro estágio. Sei lá… acho que mais de 10 km por dia de caminhada.
Depois de formado comecei a trabalhar o dia inteiro, numa rotina louca, sobrecarregado (pra não dizer explorado, violentado, escravizado pela iniciativa privada). Com isso, passava o dia inteiro sem comer direito, pois não tinha tempo nem de lembrar da comida.
Isso me acabou. Chegava em casa por volta das 20:00 horas monstruosamente faminto e devorava tudo que o armário da cozinha e a geladeira eram capazes de armazenar. O cansaço só me permitia comer, tomar banho e dormir. Assim, em menos de 1 ano, ganhei de presente mais uns 10 kg.
Mudei de emprego: menos trabalho, mais dinheiro e nessa equação vieram mais oportunidades pra me entregar ao prazer de comer.
Passei a freqüentar restaurantes melhores. Na verdade, vou confessar: só saía pra comer.
Minhas idas ao supermercado dispensavam visitação em seções de alimentos lights, frutas verduras, cereais. Meu carrinho só transportava iogurte, queijos, refrigerantes, pães, bolos, pizzas, doces, sorvetes, e congêneres.
Só que agora, de veículo próprio, casado e acomodado (sem a pressão de ter que me manter bonito, no que eu estava errado), cheguei aos 28 anos com 102 kg.
Algumas pessoas não acham que estou gordo. Uso roupas formais (as que ainda servem, pois mais da metade do meu guarda-roupa está de férias) que esconde um pouco o sobrepeso.
Só eu sei como me sinto. Barriga imensa que incomoda quando eu sento. Até cinto de segurança machuca. Não tenho vitalidade. Ando fadigado. Sinto falta de ar ao subir as escadas do meu prédio.
As minhas cuecas estão apertadas. Minha esposa demonstra pouco apetite sexual, ou quase nenhum. Também pudera, acho que meu rendimento caiu. Isso é f*%#!
Dizem que dieta e preocupação com o peso é coisa de mulher, mas no meu caso, mais do que a estética, trata-se de uma questão de saúde.
Todas as minhas taxas estão elevadas: colesterol, glicemia, triglicérides…
Por isso, como promessa de fim de ano, decidi emagrecer. Coisa que achei muito difícil por conta da quantidade de comida que eu ingeria.
Inexplicavelmente (já usei essa palavra, mas vai ela de novo, já que não vejo sinônimo bom o suficiente), recebi a visita da força de vontade (outro dia vi na internet o diálogo de um cara com a força de vontade dele e achei bacana…).
Pois bem. Fui tomado de assalto por uma força de vontade tremenda que me fez começar a dieta antes da consulta na nutricionista. Olhava no espelho e me imaginava sem as gorduras, usando camiseta colada. Perdi o tesão por comida.
Fui ao supermercado comprei peixe, pão integral, leite desnatado, aveia, granola, linhaça, queijo branco e um monte de fruta.
Quando recebi o cardápio da nutricionista vi que eu já tava comendo menos do que ela recomendou e assim prossegui.
No quinto dia de dieta comecei a sentir muita fome a noite. Até doía. Fiquei com medo de não conseguir agüentar.
Decidi fazer algo que muitos fazem e não assumem: tomar um inibidor de apetite, um saciógeno famoso.
O endocrinologista me disse que tava cedo. Eu deveria perder 20 kg, mas podia tentar antes com dieta e exercício e só depois partir pro medicamento.
Pro escambau essa teoria! Eu que estou gordo, eu que estou insatisfeito com meu corpo, eu que estou sofrendo com a dieta, comprei a droga.
Não me arrependi. Com o remédio não sofro com o regime. Como pouco e somente alimentos saudáveis. Comecei caminhadas 3 vezes na semana.
Como resultado? Mais de 3 kg perdidos em apenas 9 dias.
Volto depois pra contar o desfecho…
Longe de mim querer julgar qualquer um por suas atitudes relacionadas à obesidade. Principalmente uma pessoa como o Marcus, que já esteve dos dois lados da moeda, e também sofreu as agruras de ser magro.
Entretanto, principalmente considerando que a Sibutramina foi proibida no Brasil recentemente — coroando minha teoria de que ela é prejudicial — fico triste de saber que ele fez uso “de um saciógeno famoso” sem orientação médica, e que está disposto a tomar remédio pro resto da vida se for para ficar magro.
Crasso engano.
Quando tomei minha primeira cápsula de sibutramina algo internamente me dizia que era um caminho errado o que eu estava tomando, mas para me justificar para as pessoas que me amam e estavam preocupadas, e principalmente para justificar a mim mesmo a insensatez de tomar sibutramina, eu fiz uso desse discurso de que se era o preço a pagar para ser magro eu pagaria.
Mas cada um tem de trilhar o seu próprio caminho, e o máximo que posso fazer é mostrar o que não se deve fazer, e deixar que as pessoas tomem suas próprias decisões.
Marcus, por favor volte aqui para contar como anda o seu tratamento, e fique certo de que estamos (todos os leitores e autores do Emagrecer) torcendo muito por você.
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